Avanço no câncer de pâncreas: Terapia de radiação alfa alcança controle total local

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#Pâncreas 

Uma luz de esperança surge no horizonte para quem enfrenta uma das doenças mais agressivas que existem: o câncer de pâncreas

Recentemente, a empresa israelense Alpha Tau Medical anunciou resultados impressionantes de sua terapia inovadora, a Alpha DaRT, durante a Digestive Disease Week de 2026, o principal congresso internacional de gastroenterologia. Os dados, apresentados em uma sessão oral pela primeira vez em um evento dessa magnitude, mostram que a terapia conseguiu 100% de controle da doença local em pacientes com adenocarcinoma ductal pancreático, o tipo mais comum e resistente dessa forma de câncer.

Imagine um tratamento que ataca o tumor diretamente de dentro, usando partículas de radiação alfa – as mesmas que, em pequena escala, destroem as células cancerígenas com precisão milimétrica, sem prejudicar tanto os tecidos saudáveis ao redor. É exatamente isso que a Alpha DaRT faz. Fontes de rádio-224 são inseridas no interior do tumor por meio de uma ultrassonografia endoscópica, um procedimento que os médicos gastroenterologistas já realizam de rotina para diagnósticos e outros tratamentos. As partículas alfa liberadas viajam apenas uma curta distância, concentrando sua força destruidora no câncer e poupando estruturas vitais próximas, como o intestino, o estômago e o fígado. Diferente de outras radioterapias externas, que muitas vezes são limitadas pela anatomia complicada do pâncreas, essa abordagem interna contorna os obstáculos naturais do corpo.

Os estudos que geraram esses resultados foram realizados no Centro Médico Hadassah, em Jerusalém, e reuniram dados de dois protocolos iniciais em humanos. Participaram 26 pacientes, dos quais 19 foram avaliados para resposta. Todos eles tinham câncer de pâncreas em estágio avançado: alguns com tumores localizados mas impossíveis de remover cirurgicamente, outros já com metástases. Muitos haviam falhado em até quatro linhas de quimioterapia ou simplesmente não podiam receber o tratamento padrão por causa do estado de saúde. Mesmo assim, o controle local foi total: 15 pacientes (79%) tiveram a doença estabilizada e 4 (21%) apresentaram redução parcial do tumor, segundo os critérios modificados do RECIST v1.1. Isso significa que o tumor primário parou de crescer ou diminuiu localmente, independentemente de o câncer ter se espalhado para outros órgãos.

O que torna esse resultado ainda mais relevante é o impacto na qualidade de vida. No câncer de pâncreas, mesmo quando a doença é metastática, o tumor principal muitas vezes causa dores intensas, obstruções biliares, problemas digestivos e sangramentos. Controlar esse foco local pode aliviar o sofrimento diário de forma significativa, mesmo que o tratamento não cure a doença como um todo. O Dr. Philip Blumenfeld, diretor da Unidade de Radioterapia Avançada do Hadassah e responsável pela apresentação, destacou que a terapia preenche uma lacuna importante. Enquanto a radioterapia estereotáxica corporal (SBRT) enfrenta limites por causa da proximidade de órgãos críticos, a Alpha DaRT entrega a radiação exatamente onde é necessária, com um perfil de segurança favorável.

Sobre segurança, os números também tranquilizam. Dos 26 pacientes tratados, apenas sete (27%) tiveram eventos adversos relacionados ao dispositivo – oito no total “, e quase todos resolveram em até duas semanas. Houve apenas um caso de fadiga persistente. Para pacientes já fragilizados pela doença e por tratamentos anteriores, esse baixo impacto é um grande diferencial. O Dr. Robert Den, diretor médico da Alpha Tau, reforçou que a consistência dos resultados em um grupo tão heterogêneo e difícil reforça o potencial da terapia para avançar em estudos maiores.

A tecnologia não é nova no conceito, mas sua aplicação prática representa um salto. Desenvolvida a partir de pesquisas da Universidade de Tel Aviv, a Alpha DaRT foi criada para ser integrada ao fluxo normal de atendimento oncológico. Não exige salas especializadas nem infraestrutura nova: o procedimento acontece na sala de endoscopia que os pacientes já frequentam. Isso facilita a adoção por equipes multidisciplinares e abre caminho para combinar a radiação local com quimioterapia sistêmica, sem aumentar excessivamente a toxicidade geral.

Esses dados de Jerusalém servem como base sólida para o ensaio IMPACT, que está em andamento nos Estados Unidos e agora inclui mais pacientes e combinações com quimioterápicos como gencitabina e nab-paclitaxel. O objetivo é confirmar se a terapia pode ser usada de forma rotineira, não só em casos avançados, mas também para melhorar resultados em pacientes recém-diagnosticados. Embora ainda seja investigacional e sem aprovação comercial nos Estados Unidos, os resultados iniciais acendem otimismo em uma área onde o progresso tem sido lento. O câncer de pâncreas permanece um dos mais letais, com poucos tratamentos que realmente mudam o curso da doença para a maioria dos pacientes.

Especialistas como o CEO Uzi Sofer veem nisso uma mudança de paradigma: uma opção intratumoral que se soma aos tratamentos existentes, respeitando o caminho natural do paciente dentro do sistema de saúde. Para famílias que convivem com o diagnóstico de câncer de pâncreas, cada avanço como esse representa mais do que números em um estudo – representa tempo, alívio e, quem sabe, uma chance real de conviver melhor com a doença.

O caminho ainda é longo. Novos estudos precisam confirmar esses achados em escala maior e por mais tempo. Mas o que foi apresentado em maio de 2026 na Digestive Disease Week já entra para a história como um marco: a primeira vez que a Alpha DaRT ganhou os holofotes de um grande congresso de gastroenterologia com dados tão promissores. É um lembrete de que a ciência, quando alia precisão física a cuidados médicos humanizados, pode transformar até os desafios mais difíceis. Para quem luta contra o câncer de pâncreas, essa notícia chega como um sopro de ar fresco e um convite à esperança.


Publicado em 04/05/2026 19h27


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